quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Cruz das Almas (Verão de 1951)

Nos limites da aldeia, dois caminhos entrecruzam-se, sendo o sítio conhecido como a Cruz das Almas.
Isto devia-se, principalmente, ao facto de um dos caminhos ir terminar junto do cemitério local. Para além disso, apresentava ainda vestígios do que parecia ser uma via romana, embora os aldeões sempre tivessem acreditado que seria, antes, obra dos mouros que, numa noite, a tinham construído. O outro caminho era a estrada que ligava a aldeia a Alferrarede, vila situada nas margens do rio Tejo.
A Cruz das Almas sempre fora objecto de relatos sobre encontros pouco recomendáveis, perigosos mesmo, a partir do escurecer. Falava-se de bruxas, fantasmas e lobisomens. Relatos que tinham o condão de manter os aldeões afastados dali, a partir de determinadas horas. Como, naquele tempo, a rede eléctrica ainda não tinha chegado à aldeia, havia campo fértil para semear todo o tipo de lendas e estórias mirabolantes. A imaginação de cada um era o limite.
Um desses encontros foi-me narrado, numa noite quente de Verão, teria eu os meus 10-11 anos.

Rezava assim a história: numa noite de lua cheia, no inicio dos anos 50, um homem encaminhava-se para aquele sítio obscuro. Não era um gesto reflectido. Ia já ébrio. Tinha-se demorado na taberna, bebido uns copos a mais. Agora, a caminho da sua casa, teria que passar, necessariamente, pela Cruz das Almas. Embora inebriado pela bebida, não se esquecia do que ouvira contar acerca do local. O medo fora atenuado mas não desaparecera. Estava lá, no íntimo, à espreita.

Quando estava quase a chegar ao cruzamento, depois de andar aos esses pelo caminho de terra batida (actualmente, parte da Cruz das Almas está alcatroada: a estrada para Alferrarede e a parte do trajecto que vai terminar no cemitério), ouviu um barulho e, para seu espanto, junto de um arbusto próximo, estava uma mulher de cócoras. Aproximou-se, sem pensar, e ficou surpreendido porque se tratava de uma comadre sua, bem conhecida dele.
Perguntou-lhe, inocentemente, o que ela fazia ali, naquela hora imprópria. A brincar, disse-lhe que, se calhar, também tinha ido para os copos, como ele, e já não sabia como ir para casa.
A mulher arregalou-lhe os olhos e, com uma voz diferente da que lhe conhecia, disse-lhe que se ele contasse que a tinha visto ali que o mataria. E, mais: obrigou-o a carregá-la às costas até à casa dela.

O homem, muito assustado com aquela reacção, obedeceu e lá teve que carregar a mulher, que pesava como chumbo, em companhia da bebedeira que já levava em cima.
Depois de cumprida a pena, foi para casa, a correr e aos tropeções. A bebedeira estava quase curada. Durante várias semanas, evitou passar na rua onde residia a comadre e fugia sempre que a via em algum lugar público, facto que causava alguma estranheza nas pessoas que o conheciam. Também nunca mais passou pela Cruz das Almas, depois de anoitecer.

Apesar da ameaça pendente, passado uns meses, acabou por contar o que se passara, à mulher dele, tendo-a feito jurar que guardava segredo.
Ele morreu passado pouco tempo disso. Um ar que lhe deu, como naquele tempo se usava designar o falecimento motivado por doença súbita como, por exemplo, um enfarte ou um AVC.
Teria sido apenas coincidência ou o resultado da maldição da comadre? Ficou sempre a dúvida. E mais uma lenda nasceu, associada à Cruz das Almas.

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