Era uma vez um tipo chamado Crax Pax, um rufia de primeira, habitué dos locais mais mal frequentados de Lisboa (tipo São Bento e Belém.... não, mentira! Cais do Sodré e tascas mal afamadas do Bairro Alto. O narrador deixa um pedido sincero de desculpas pela confusão sem fundamento. Retomemos a estória).
Andava sempre metido em confusões sobretudo as que envolviam pancadaria de criar bicho.
Geralmente, era ele que começava as brigas, sendo raras as vezes em que saia derrotado. Derrota era termo que para ele não existia. Até que um dia tudo mudou. Foi quando deixou de tolerar os maus odores, corporais e não só.
Na noite em que tudo aconteceu, Crax Pax já estava embriagado, como de costume. Já tinha desmontado um ou outro infeliz que lhe tinha passado pela frente e que com apenas o próprio cheiro o tinha provocado. Sim, porque Crax Pax era uma pessoa sensível aos odores. Podia tolerar o seu próprio mau odor (tomava banho uma vez por semana, habitualmente no balneário público de Alcântara) mas não admitia isso noutras pessoas que, estando ao alcance do seu nariz, tinham o azar de ou não ter tomado banho naquele dia ou simplesmente terem andado de metro ou noutro transporte público em hora de ponta, ficando impregnados do (mau) cheiro de outros passageiros. Era-lhe quase repugnante, mas essa sensação servia-lhe de pretexto para escolher os alvos do seu mau feitio.
Normalmente, ele evitava andar de transportes públicos, principalmente no Verão quando os maus odores corporais abundavam nos locais mais frequentados. Era particularmente avesso ao metropolitano. Quando a miscelânea de odores pestilentos, oriundos da transpiração corporal dos companheiros de viagem, penetrava as suas narinas, Crax Pax entrava num estado de quase náusea.
Para curar-se desta sensação desconfortável, Crax Pax geralmente desancava a origem da mesma. Como não podia dar porrada em todos os traunseuntes suspeitos das emanações (mesmo para ele, isso era humanamente impossível), simplesmente evitava as horas de ponta para se deslocar na rede pública de transportes. Mas se fosse mesmo necessário, aguentava-se, estoicamente, sem ceder ao seu péssimo e violento feitio.
Naquele dia, ou melhor dizendo, noite fatídica, um motoqueiro, depois de ter sido agredido por Crax Pax, lixado da vida, e sequioso de vingança, de forma vil e cobarde, lançou-se com sua moto para cima dele, atropelando-o. O impacto da mota causou algumas escoriações e uma valente dor de cabeça em Crax Pax. Numa pessoa normal, teria originado um severo traumatismo craniano. Crax Pax apenas ficou inconsciente por alguns momentos, o suficiente, no entanto, para se deixar dominar pelos capangas do seu adversário. Quando voltou a si, estes preparavam-se para o “autopsiar”, a começar pelas artérias jugulares mas, com um gesto rápido e letal, Crax Pax sacudiu os oponentes que o agarravam, arrancou a navalha da mão do pretendente a seu homicida e, em seguida, espetou-lha no bucho. Enquanto os restantes motoqueiros fugiam, cada um por si, manteve a sua vítima segura até que sentiu-a apagar-se e largou o fulano no chão. Em seguida, escapuliu-se dali para fora, antes que a polícia aparecesse.
Enfiou-se na primeira estação de metro que viu.
Depois disso, e já a caminho de casa, dentro de uma composição do metropolitano, começou a sentir-se estranho. Progressivamente, e de forma penetrante, os aromas e odores de tudo o que estava à sua volta intensificaram-se. Sentiu-se zonzo e a desfalecer. Por sorte, devido ao adiantado da hora, eram poucos os passageiros e nenhum cheirava mal o suficiente para o deitar abaixo. Mas ainda assim, foi um momento complicado e aterrorizante para Crax Pax.
Ao sair na sua estação de destino, correu como pode. Só parou junto à porta da água furtada onde residia. Normalmente, ia lá dormir nas noites em que estava suficientemente sóbrio para ali chegar. Na maior parte das vezes, podre de bêbado, dormia à porta do bar onde tinha tomado a dose letal ou, ainda, no quarto de uma pensão qualquer, agarrado a alguma prostituta ou conquista de ocasião, cujo odor corporal tinha sido aprovado pelo seu sensível olfacto.
(continua)
Capuchinho Vermelho II
Há 16 anos

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