quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Tronco

O episódio que se narra em seguida ocorreu em Guilhazes de Rabaçal, algures no Portugal profundo, em data incerta. O processo encontra-se arquivado no SIS, classificado como altamente confidencial. No entanto, e obviamente, nada neste país permanece assim por muito tempo. Ainda mais um segredo de Estado...
O que se passou afinal? Em suma, numa serração local, em Guilhazes de Rabaçal, um tronco, de amieiro, quando estava prestes a ser transformado em ripas, falou e pediu misericórdia. Já estava aprestado para ser cortado quando começou a soluçar e a implorar que o soltassem e deixassem ir. Os operários da linha de corte nem queriam acreditar no que viam e ouviam.
O pedido causou, primeiro, espanto (“Ó Manel, isto é alguma partida de Carnaval atrasada ou quê? Para lá com essas merdas, pá!”), depois consternação (“Ó Manel?! Macacos me mordam, pá! O som vem mesmo do tronco, pá!”) e, finalmente, horror (“Meu Deus! O que é isto, pá? Manel, o que se passa, pá!? Isto é bruxaria, é coisa do demo! Chiça!”). Primeiro, porque nunca tal tinha acontecido ou sido visto: um tronco a falar. Era uma situação que estava remetida para os livros e filmes para crianças. Depois, por causa do que disse: que não o cortassem aos bocados, que o poupassem a tal destino.
Os trabalhadores da serração ficaram em estado de choque. Não podiam continuar. Não tinham coragem nem para serrar aquele tronco e nem mesmo para ali continuar. O dono da serração foi posto ao corrente do que se passava. Não podia ser, deveriam estar todos loucos. Ou pior, era um pretexto para ficarem sem fazer nada! Malandros, já vão ver como elas mordem! Foi o que pensou o homem até chegar à secção de corte. Os trabalhadores estavam todos no exterior do pavilhão. Ninguém queria voltar lá para dentro. Nem mesmo quando o patrão os admoestou. “Pois bem, seu bando de maricôncios. Eu vou lá dentro ver o que se passa. E depois vamos ter uma conversa de homem para homem, seus vermes imprestáveis! E entrou. Passados 6 minutos, saiu. Estava estarrecido, lívido mesmo. Ia desmaiando. Ainda o conseguiram agarrar antes de atingir o chão. Depois, tiveram que o tirar dali em braços. E as horas foram-se passando, sem que ninguém soubesse o que fazer.
O tronco lamentava-se de tempos a tempos, continuando amarrado à passadeira da linha de corte.
Quando tudo ficava em silêncio, alguns dos operários, menos medrosos, ganhavam coragem suficiente e atreviam-se a entrar no pavilhão. Saiam logo a correr, assim que recomeçavam os lamentos.
Entretanto, alguns dos trabalhadores que tinham saído da serração já tinham espalhado a novidade nos arredores. Não tardou que começassem a afluir os curiosos e, na senda, os repórteres. Primeiro, do jornal local. Ao constatar o que se passava, o jornalista entrevistou alguns dos operários presentes e mirones afins e, depois, tentou obter um depoimento do tronco. Entrou sozinho na secção de corte. Passados 7 minutos saiu. Vinha a cambalear, visivelmente perturbado pela experiência. Assim que recuperou a compostura, e sem dizer nada, olhou em redor e foi-se embora rapidamente. O que teria ele ouvido para agir daquela forma, interrogaram-se todos os que ali estavam.
Nenhum dos presentes soube jamais o que aquele repórter teria ouvido. O que é certo é que passadas menos de 2 horas chegava ao local uma equipa de reportagem do Canal 5. E, logo depois, dos restantes canais nacionais. O circo estava montado. A administração da fábrica chamou a polícia e, em menos de meia hora, tinham chegado 2 carrinhas da brigada anti-motim. Posicionaram-se em frente das entradas da secção de corte assim como controlavam a entrada na serração.
No interior da secção de corte, o tronco continuava a lamentar a sua triste sorte ao passo que a multidão que se aglomerava, cá fora, impacientava-se em saber novas sobre aquele milagre da natureza.
Ouviu-se comentar que vinham a caminho cientistas para avaliar o fenómeno. Nos noticiários televisivos, o facto ocorrido era notícia de abertura e merecia acompanhamento em directo, sendo a programação normal interrompida sempre que alguém ouvia um ai ou tinha qualquer coisa para dizer sobre o caso, nem que fossem inanidades.

E o tronco lá continuava, amarrado na passadeira de corte. O dono da serração, já recuperado do choque, quis que corressem com aquele mar de gente que tinha invadido a sua propriedade. Apelou à polícia para esse efeito. Que estava a perder dinheiro com aquilo tudo, nem conseguia fazer sair mercadoria nem a matéria-prima conseguia entrar. Os acessos estavam muito condicionados. Não teve sorte. Aquilo já tinha passado a caso de emergência nacional. O Ministro da Administração Interna estava já a acompanhar a situação, estando prestes a chegar, acompanhado por uma companhia do GOE. O Presidente da República tinha convocado uma reunião do conselho de estado e chamara, de urgência, o Primeiro-Ministro para se inteirar do que se estava a passar e do que iria ser feito para resolver a situação, com a maior descrição possível.
Já era tarde.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros começou a receber pedidos de informação sobre o caso. Os serviços secretos, idem. A notícia já tinha saltado para a CNN. Praticamente, a notícia já tinha corrido o mundo. Logo, começaria a pressão internacional para partilhar os resultados da avaliação que os cientistas portugueses, já no local, estavam a efectuar.
Na serração, após a chegada do grupo de especialistas botânicos, antropologistas, biólogos e parapsicólogos, e da sua entrada na secção de corte, a multidão estava em suspenso. Todos esperavam ansiosamente pela sua saída ou por algum sinal do que se estava a passar. Muitos estavam no local há horas. Começou a escurecer. As luzes começaram a acender e a pontilhar a serração, assim como a zona envolvente. Os holofotes instalados pelos canais de televisão também. E continuava-se à espera.
A multidão começou a debandar, paulatinamente. Essas pessoas não iam esperar mais tempo pela saída dos cientistas. Ou tinham outros compromissos, adiados (por causa da curiosidade) ou inadiáveis (do género, “vens já para casa ou ficas na rua, seu vadio!”), ou preferiam acompanhar, pela televisão, o desenlace da trama.
O silêncio ia-se instalando, progressivamente. Apenas pontuado pelo burburinho, aqui e acolá, por alguma entrevista ou declaração em directo para algum dos canais de televisão presentes no local. A actividade da serração tinha cessado de todo desde que a polícia tinha estabelecido o cordão de segurança nas instalações. Independentemente disso, a actividade teria parado na mesma. Nenhum dos trabalhadores se atrevia a entrar na secção de corte, pelo que toda a linha de produção estava parada por causa deste facto.
E nada.
Nada acontecia. Ninguém entrava ou saia do pavilhão para onde as câmaras de TV estavam apontadas, iluminado por projectores. As equipas de reportagem estavam em amena cavaqueira, num saudável convívio entre concorrentes. Nalguns casos, os operadores de câmara tinham ido ao café da serração ou estavam a dormitar nas carrinhas respectivas. Os assistentes contavam anedotas entre si e alguns dos repórteres e populares que teimavam em não arredar pé. Frente à secção de corte, os elementos da polícia de choque mantinham uma postura marcial, acompanhados por elementos do GOE. Sabia-se que alguns atiradores especiais se tinham posicionado na cobertura do pavilhão, centro de todas as atenções.
Enfim. Era um grande aparato o que estava instalado naquele lugar.
E a espera continuava.
Algumas pessoas comentavam que os cientistas deviam estar a ter dificuldade em determinar o que se passava, qual a origem do fenómeno. Outras que era tudo um embuste, uma manobra do governo para desviar as atenções dos últimos casos de corrupção que envolviam alguns dos actuais ministros, incluindo o primeiro. Outras ainda contrapunham que, nada disso, o que se passava era uma tentativa de ocultação por parte do governo da chegada de extraterrestres à Terra, que não era um tronco como tinha sido anunciado mas uma inteligência extraterrestre que tinha estabelecido contacto antes que cortassem a sua nave, dissimulada de árvore, em ripas. Outros ainda diziam que se tratava de uma aparição, tal como tinha acontecido em Fátima, em 1917. O facto de ser na secção de corte de uma serração não tornava o raciocínio inverosímil. Alguns brincalhões, por fim, afirmavam que, na realidade, o que estava a decorrer dentro daquele pavilhão era uma patuscada valente, com bué de miúdas descascadas e álcool à descrição. Iam sair de lá todos, de madrugada, com uma buba descomunal. Esperem para ver. E os tótos aqui à espera da nossa senhora!
Era este o estado de espírito ao fim de, praticamente, 10 horas.
E então, de repente, terminou a espera.
Primeiro, saíram alguns polícias.
Seguidamente, dois homens engravatados, de aspecto reservado. Se calhar, eram do governo, comentavam alguns dos populares ainda ali presentes. Ou então, agentes secretos, diziam outros. Os repórteres tentaram chegar-lhes à fala mas foram impedidos pela força policial que formou um cordão de segurança entre as pessoas que iam saindo da secção de corte e as que permaneciam no exterior, à espera de novidades.
Foram saindo, saindo e nenhuma palavra. Os jornalistas estavam desesperados por uma simples declaração, mesmo que não fosse em exclusivo. As pessoas estavam amontoadas à frente do cordão policial, que as ia mantendo à distância da entrada do pavilhão da secção de corte. Houve uma ou outra bastonada para acalmar os ânimos. Quando saíram os cientistas e o ministro da administração interna, este último fez sinal ao corpo policial para deixarem passar as equipas de reportagem dos canais televisivos. Ia dar uma conferência de imprensa.
Os repórteres e câmaras que os acompanhavam passaram o cordão. O resto da multidão, ficou-se à espera do que iria seguir-se. As reacções eram diversas: Parece que é agora que vamos saber o que se passa. Nã! Não me acredito. Só vendo e ouvindo o que aquele tipo vai dizer. Cheira-me que querem deitar areia aos olhos do povo. Achas?! Pois, pois. Uns fascistas, é o que eles todos são. Uma cambada! Ouça lá, isso não é verdade. Até tem feito algumas coisas boas para o povo. AH, sim?! O quê? Encher os bolsos deles, essa é que é essa. Digo-lhe mais…E cortaram o pio. O ministro ia começar a falar. Os canais de televisão já estavam a transmitir em directo para o país. Fez-se silêncio absoluto.
“Senhoras e senhores jornalistas. Prezados cidadãos. O que tenho para vos dizer é da maior impotência, perdão, importância! Hoje, aqui neste lugar, na localidade de, de… (um assessor segreda-lhe algo ao ouvido) Guilhazes de Ribançeiro… (o assessor volta a dizer-lhe algo ao ouvido), perdoem-me, Guilhazes de Rabaçeiro! Dizia pois que hoje aconteceu algo memorável, verdadeiramente extraordinário. Senhoras e senhores, hoje ficou comprovado, sem margem para dúvidas, o sucesso das iniciativas do governo que eu, hoje e aqui, represento!”
Espanto generalizado entre os jornalistas. A isto, junte-se os populares no local e vários milhões de espectadores que assistiam ao directo.
“De facto”, continuou o ministro, “o acontecimento que se produziu neste dia histórico, que ficará para a posteridade como sendo o inicio de uma nova era de conhecimento e prosperidade para o país, tem como base a política do governo de fomento da investigação & desenvolvimento científico. Sim, é verdade, concidadãos! O que aqui hoje ocorreu tem somente a ver com o apoio dado pelo Ministério da Agricultura a um programa específico da indústria nacional de celulose para o desenvolvimento de espécies inteligentes. Uma vez que ainda não se chegou a uma conclusão definitiva sobre as verdadeiras causas deste fenómeno, embora não estejamos longe disso, posso garantir, o espécime arborícola será transportado para um centro de investigação de última geração, também fruto das políticas criteriosas do Governo. Iremos informando a opinião pública sobre o andamento das pesquisas, que espero, dado os recursos postos à disposição da comunidade científica, fruto, como eu dizia, da forte aposta do Governo no desenvolvimento do nosso país, sejam breves e conclusivas. Obrigado a todos e boa noite. E saiu dali, sem responder a nenhuma das perguntas que os jornalistas presentes começaram a disparar na sua direcção.
O cordão policial manteve à distância a multidão, enquanto o tronco era retirado do pavilhão por uma empilhadora e colocado num camião do exército que, enquanto decorria a conferência de imprensa, tinha chegado ao local.
Os populares e os jornalistas acotovelavam-se para tentar chegar perto do tronco mas era escusado. A polícia manteve-se firme no posto e eficaz na execução da sua tarefa.
O camião, depois de carregado o tronco, arrancou dali em alta velocidade, sob escolta militar. Houve alguns carros de reportagem que ainda tentaram seguir o comboio militar, na esperança de descobrir para onde ia ser levado mas foram travados pela barragem policial, logo à saída da serração. A única coisa que os frustrados jornalistas puderam fazer foi observar os veículos militares a desaparecer na noite escura.
Ao contrário do que tinha dito o ministro, posteriormente, não houve nenhum comunicado acerca do resultado das pesquisas feitas ao tronco. O assunto, como que por magia, esfumou-se e nenhum órgão de comunicação social voltou a falar do fenómeno.
Estranhamente.
Na rua e nos cafés, o tema manteve-se vivo durante uns tempos. Especulava-se acerca dos motivos de tal silêncio. Uma conspiração, para esconder a verdade, estava em curso, era a opinião popular generalizada. O Governo estava a enganar o povo. Já se falava em realizar uma greve geral para obter explicações. Ao ponto a que as paixões estavam a chegar. Mas, entretanto, maravilha das maravilhas: começou o Mundial de Futebol! E a selecção nacional atraiu a si todas as atenções. Em breve, e dada a campanha vitoriosa da selecção nacional, o mistério do tronco foi obliterado da memória colectiva. O que interessava agora eram os jogos da selecção. De vitória em vitória até à final. O país parou nesse dia. A selecção nacional venceu a partida. A conquista do Mundial foi a cereja no topo do bolo. Provocou uma histeria colectiva que durou meses. Não se falava em mais nada. O Governo agradeceu esta paz social, aproveitando para tomar algumas medidas de cariz impopular, mascarando tudo com o recurso às caras da vitória da selecção. Passou tudo, apesar de um ou outro protesto, sem eco, da oposição.
Quanto ao fenómeno de Guilhazes de Rabaçeiro, o assunto foi morrendo por falta de interesse popular. E de algumas acções concretas, nesse sentido, para calar os irredutíveis da teoria da conspiração. Houve pressões para silenciar estes últimos. Alguns blogues e sites da Internet, que mantinham teimosamente o assunto vivo, foram metodicamente boicotados e, finalmente, interditados. Os seus autores, quando identificados, foram perseguidos e, nalguns casos, vitimados por estranhos acidentes que lhes custaram a vida. Tudo isto se passou discretamente, é claro, ignorado pela esmagadora maioria dos cidadãos, que permaneciam adormecidos pelo doce sabor do sucesso futebolístico. A paixão era mais forte e prevaleceu sobre o resto.
E nada mais se soube ou se questionou, até hoje, sobre aquele tronco que falou um dia ao ser colocado na linha de corte de uma serração, algures no país profundo.
Portanto, cuidado. Depois de lerem isto, é melhor não divulgar. Ainda quero viver tranquilo por mais uns bons anitos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Cruz das Almas (Verão de 1951)

Nos limites da aldeia, dois caminhos entrecruzam-se, sendo o sítio conhecido como a Cruz das Almas.
Isto devia-se, principalmente, ao facto de um dos caminhos ir terminar junto do cemitério local. Para além disso, apresentava ainda vestígios do que parecia ser uma via romana, embora os aldeões sempre tivessem acreditado que seria, antes, obra dos mouros que, numa noite, a tinham construído. O outro caminho era a estrada que ligava a aldeia a Alferrarede, vila situada nas margens do rio Tejo.
A Cruz das Almas sempre fora objecto de relatos sobre encontros pouco recomendáveis, perigosos mesmo, a partir do escurecer. Falava-se de bruxas, fantasmas e lobisomens. Relatos que tinham o condão de manter os aldeões afastados dali, a partir de determinadas horas. Como, naquele tempo, a rede eléctrica ainda não tinha chegado à aldeia, havia campo fértil para semear todo o tipo de lendas e estórias mirabolantes. A imaginação de cada um era o limite.
Um desses encontros foi-me narrado, numa noite quente de Verão, teria eu os meus 10-11 anos.

Rezava assim a história: numa noite de lua cheia, no inicio dos anos 50, um homem encaminhava-se para aquele sítio obscuro. Não era um gesto reflectido. Ia já ébrio. Tinha-se demorado na taberna, bebido uns copos a mais. Agora, a caminho da sua casa, teria que passar, necessariamente, pela Cruz das Almas. Embora inebriado pela bebida, não se esquecia do que ouvira contar acerca do local. O medo fora atenuado mas não desaparecera. Estava lá, no íntimo, à espreita.

Quando estava quase a chegar ao cruzamento, depois de andar aos esses pelo caminho de terra batida (actualmente, parte da Cruz das Almas está alcatroada: a estrada para Alferrarede e a parte do trajecto que vai terminar no cemitério), ouviu um barulho e, para seu espanto, junto de um arbusto próximo, estava uma mulher de cócoras. Aproximou-se, sem pensar, e ficou surpreendido porque se tratava de uma comadre sua, bem conhecida dele.
Perguntou-lhe, inocentemente, o que ela fazia ali, naquela hora imprópria. A brincar, disse-lhe que, se calhar, também tinha ido para os copos, como ele, e já não sabia como ir para casa.
A mulher arregalou-lhe os olhos e, com uma voz diferente da que lhe conhecia, disse-lhe que se ele contasse que a tinha visto ali que o mataria. E, mais: obrigou-o a carregá-la às costas até à casa dela.

O homem, muito assustado com aquela reacção, obedeceu e lá teve que carregar a mulher, que pesava como chumbo, em companhia da bebedeira que já levava em cima.
Depois de cumprida a pena, foi para casa, a correr e aos tropeções. A bebedeira estava quase curada. Durante várias semanas, evitou passar na rua onde residia a comadre e fugia sempre que a via em algum lugar público, facto que causava alguma estranheza nas pessoas que o conheciam. Também nunca mais passou pela Cruz das Almas, depois de anoitecer.

Apesar da ameaça pendente, passado uns meses, acabou por contar o que se passara, à mulher dele, tendo-a feito jurar que guardava segredo.
Ele morreu passado pouco tempo disso. Um ar que lhe deu, como naquele tempo se usava designar o falecimento motivado por doença súbita como, por exemplo, um enfarte ou um AVC.
Teria sido apenas coincidência ou o resultado da maldição da comadre? Ficou sempre a dúvida. E mais uma lenda nasceu, associada à Cruz das Almas.

sábado, 28 de março de 2009

Crax Pax, o homem que não tolera o mau odor

Era uma vez um tipo chamado Crax Pax, um rufia de primeira, habitué dos locais mais mal frequentados de Lisboa (tipo São Bento e Belém.... não, mentira! Cais do Sodré e tascas mal afamadas do Bairro Alto. O narrador deixa um pedido sincero de desculpas pela confusão sem fundamento. Retomemos a estória).
Andava sempre metido em confusões sobretudo as que envolviam pancadaria de criar bicho.
Geralmente, era ele que começava as brigas, sendo raras as vezes em que saia derrotado. Derrota era termo que para ele não existia. Até que um dia tudo mudou. Foi quando deixou de tolerar os maus odores, corporais e não só.
Na noite em que tudo aconteceu, Crax Pax já estava embriagado, como de costume. Já tinha desmontado um ou outro infeliz que lhe tinha passado pela frente e que com apenas o próprio cheiro o tinha provocado. Sim, porque Crax Pax era uma pessoa sensível aos odores. Podia tolerar o seu próprio mau odor (tomava banho uma vez por semana, habitualmente no balneário público de Alcântara) mas não admitia isso noutras pessoas que, estando ao alcance do seu nariz, tinham o azar de ou não ter tomado banho naquele dia ou simplesmente terem andado de metro ou noutro transporte público em hora de ponta, ficando impregnados do (mau) cheiro de outros passageiros. Era-lhe quase repugnante, mas essa sensação servia-lhe de pretexto para escolher os alvos do seu mau feitio.
Normalmente, ele evitava andar de transportes públicos, principalmente no Verão quando os maus odores corporais abundavam nos locais mais frequentados. Era particularmente avesso ao metropolitano. Quando a miscelânea de odores pestilentos, oriundos da transpiração corporal dos companheiros de viagem, penetrava as suas narinas, Crax Pax entrava num estado de quase náusea.
Para curar-se desta sensação desconfortável, Crax Pax geralmente desancava a origem da mesma. Como não podia dar porrada em todos os traunseuntes suspeitos das emanações (mesmo para ele, isso era humanamente impossível), simplesmente evitava as horas de ponta para se deslocar na rede pública de transportes. Mas se fosse mesmo necessário, aguentava-se, estoicamente, sem ceder ao seu péssimo e violento feitio.
Naquele dia, ou melhor dizendo, noite fatídica, um motoqueiro, depois de ter sido agredido por Crax Pax, lixado da vida, e sequioso de vingança, de forma vil e cobarde, lançou-se com sua moto para cima dele, atropelando-o. O impacto da mota causou algumas escoriações e uma valente dor de cabeça em Crax Pax. Numa pessoa normal, teria originado um severo traumatismo craniano. Crax Pax apenas ficou inconsciente por alguns momentos, o suficiente, no entanto, para se deixar dominar pelos capangas do seu adversário. Quando voltou a si, estes preparavam-se para o “autopsiar”, a começar pelas artérias jugulares mas, com um gesto rápido e letal, Crax Pax sacudiu os oponentes que o agarravam, arrancou a navalha da mão do pretendente a seu homicida e, em seguida, espetou-lha no bucho. Enquanto os restantes motoqueiros fugiam, cada um por si, manteve a sua vítima segura até que sentiu-a apagar-se e largou o fulano no chão. Em seguida, escapuliu-se dali para fora, antes que a polícia aparecesse.

Enfiou-se na primeira estação de metro que viu.
Depois disso, e já a caminho de casa, dentro de uma composição do metropolitano, começou a sentir-se estranho. Progressivamente, e de forma penetrante, os aromas e odores de tudo o que estava à sua volta intensificaram-se. Sentiu-se zonzo e a desfalecer. Por sorte, devido ao adiantado da hora, eram poucos os passageiros e nenhum cheirava mal o suficiente para o deitar abaixo. Mas ainda assim, foi um momento complicado e aterrorizante para Crax Pax.
Ao sair na sua estação de destino, correu como pode. Só parou junto à porta da água furtada onde residia. Normalmente, ia lá dormir nas noites em que estava suficientemente sóbrio para ali chegar. Na maior parte das vezes, podre de bêbado, dormia à porta do bar onde tinha tomado a dose letal ou, ainda, no quarto de uma pensão qualquer, agarrado a alguma prostituta ou conquista de ocasião, cujo odor corporal tinha sido aprovado pelo seu sensível olfacto.
(continua)