terça-feira, 20 de outubro de 2020

O homem à beira do abismo

 Jorge nem se tinha dado conta de como tinha chegado ali, ao topo da falésia, batida pela brisa marítima e pelo chuvisco tocado a vento. O dia estava desagradável. Uma intempérie começava a fazer sentir os seus efeitos no país. Uma depressão, segundo os meteorologistas, vinha a caminho, do Atlântico norte, para apagar, de vez, os últimos rasgos de Verão.

Isto era irrelevante para Jorge, já nada lhe interessava nesta vida. Estava apático, deprimido. Após perder o emprego, há coisa de três meses (mais uma vítima da pandemia económica), a mulher e a filha tinham-no deixado assim como os seus "grandes amigos". Eram muitos, assim pensava ele, até ficar na merda e lhe voltarem, quase todos, sem exceção, as respetivas costas.

Do nada, naquele dia, levantou-se da cama, vestiu uma gabardine sobre o pijama e arrastou-se para a rua, apesar do mau tempo que fazia-se sentir. Enfiou-se no carro e partiu, sem rumo certo. Parecia que era o carro que ia escolhendo o percurso: as ruas, as avenidas, as estradas...

E estava ali agora, imóvel, à beira do abismo. O que iria fazer a seguir? Teria uma epifânia, algo que lhe mudasse drasticamente o ânimo e sairia dali a correr, rumo a uma nova vida, cheia de sucesso e felicidade, como nos filmes e romances, ou daria um passo em frente, rumo ao vazio, primeiro, e depois ao esquecimento líquido, proporcionado pelo mar bravio? Que dilema! Era um momento crucial, de decisões cujas consequências na vida do individuo são, para bem e para o mal, duradouras ou mesmo definitivas.

Jorge, como que sonâmbulo, olhou uma e outra vez, em seu redor. Depois, olhou para o céu, negro como breu. Sentia o vento a bater-lhe na cara, cada vez mais forte e húmido, carregado de gotas de água, cada vez mais grossas. Inspirou profundamente, uma, duas, três vezes. "Ah, como a vida é bela", pensou. E avançou, rumo à eternidade. 









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